Comecei o ano me desviando de uma indução. Nat descobriu uma diabetes gestacional no último minuto do segundo tempo. Com 39 semanas e 1 dia, fez uma ultrassonografia que acusou macrossomia fetal (bebê grande) e polidrâmnio (excesso de líquido amniótico). Um dia antes da virada do ano.
Sua médica sugeriu que não induzíssemos imediatamente, dadas as condições desfavoráveis do fim de ano. Então, resolvemos iniciar as induções não farmacológicas no dia 1º de janeiro e as medicamentosas no dia 2.
Cheguei com Karina, a enfermeira obstétrica, à casa Airbnb que Nat havia alugado para aguardar o trabalho de parto, na mesma cidade do hospital onde daria à luz. Lá, realizamos o descolamento de membranas – um procedimento pouco invasivo que pode estimular o útero, ótimo para ser combinado com outros métodos de indução. Também fizemos uma sessão de acupuntura para estimular as contrações e preparei um shake de rícino que, segundo a Nat, estava “maravilhoso”. Depois do shake, fizemos um escalda-pés com acupressão e fitoterapia, tudo isso enquanto conversávamos sobre o parto, tirando dúvidas e sintonizando a rádio na frequência “parir”.
Eu já intuía que esses estímulos seriam suficientes. Não sei por quê. Às vezes, rolam umas intuições que prefiro não racionalizar demais. Mas saí de lá com as antenas ligadas, sentindo que logo voltaria. Talvez até com certa pressa.
Dito e feito.
Chegando na casa da Ju, meu ponto de apoio “Beagáense”, só deu tempo de terminar a comida e engolir rapidinho antes de voltar às pressas. Até a mãe da Nat já tinha me mandado mensagem: as contrações estavam intensificando.
No caminho, muita chuva.
Ao chegar na casa, faltava só atravessar a rua quando um carro passou e jogou toda a poça d’água em minhas pernas. Que dia intenso, hein?! Em dois milésimos de segundo, fiquei ensopada. Ainda bem que estava calor!
Ao entrar, encontrei Nat deitada na cama, no escuro. Sua mãe logo providenciou uma troca de roupa para mim enquanto Karina chegava e começávamos a nos revezar nos cuidados. O trabalho de parto estava evoluindo rápido, e Nat nos sinalizava que a intensidade das contrações estava ficando demais.
Karina sugeriu um exame de toque para avaliarmos a dilatação. E claro: 9 para 10 cm. Foi só dar a notícia e Nat entrou no expulsivo.
Mandei uma mensagem no grupo do WhatsApp avisando a médica de que estávamos nos preparando para ir ao hospital. Mas precisávamos da confirmação de que ela estava a caminho, senão correríamos o risco de chegar antes dela, e o parto acabaria acontecendo com algum plantonista.
Ninguém queria isso. Especialmente a Nat.
Mas, na verdade, não foi isso que nos prendeu na casa. O que nos impedia de ir para o hospital eram as próprias contrações: fortes, frequentes. Nat não conseguia sequer se imaginar levantando e caminhando até o carro. Entre uma fala e outra, outra contração. E mais outra.
Então, Guilherme, seu esposo, entrou no quarto.
No mesmo instante, a bolsa rompeu.
Ele até pensou que era a cabecinha de Tomás, mas era a bolsa – linda, branca, íntegra. Por pouco tempo. Puff! Rompida.
Os puxos ficaram ainda mais fortes. Tudo acontecendo em questão de 10 ou 15 minutos.
O hospital acabava de ficar ainda mais distante de nós.
Com tudo fluindo muito bem, Nat acatou a sugestão da enfermeira e ficou de quatro apoios. Cerca de 20 minutos depois, Tomás nasceu.
Gesticulando o rostinho para nós a cada momento do expulsivo.
Um parto natural.
Com estímulos? Sim! Mas natural. Muito natural.
Tão natural que foi em casa.
Tão natural que aconteceu com a mãe de Nat filmando e chorando ao mesmo tempo.
Tão natural que foi no silêncio e no escuro.
Seguimos para o hospital logo depois da chegada de Tomás.
Seu nascimento foi tão tranquilo que ele nem quis chorar. Deu para perceber que ele gostou de nascer assim, em casa, rodeado de amor.
Eu também gostaria!
Que parto!
Um partaço!
Um ótimo parto para começar o ano, inclusive. Estou entendendo como um bom presságio para 2025 na doulagem.


