Quero escrever sobre o parto da Wanice, o nascimento da Luana, antes de ver o vídeo que gravei.
Não faço ideia de como ficou a gravação. Não havia um bom lugar para apoiar o celular, e o marido dela, surpreendido com a situação, não conseguiu gravar – como da doutra vez. Pegou o filho de 2 anos no colo e ficou ali, parado na porta do banheiro, se mantendo firme o suficiente para assistir ao nascimento da filha, ainda sem acreditar que tudo estava acontecendo tão rápido.
Wanice completava 40 semanas e 6 dias hoje. Conversamos sobre iniciar um processo de estímulos para tentar induzir o parto de forma natural, evitando medicamentos. Afinal, amanhã, com 41 semanas completas, a indução hospitalar seria recomendada — como orienta o protocolo obstétrico vigente no Brasil (5 de novembro de 2024). Ontem, enviei um vídeo ensinando uma amarração com tecidos para ajudar a bebê a se posicionar melhor e facilitar o encaixe. Também passei uma receita fitoterápica com óleo de rícino para estimular o trabalho de parto.
Antes de dormir, apenas com a amarração, Wanice relatou incômodos na região pélvica, especialmente ao sentar para urinar. Acordei de madrugada para checar o celular, mas não havia mensagens. Quando amanheceu, enviei uma mensagem perguntando como estava. Ela respondeu que seguia da mesma forma e que estava indo preparar o shake de rícino. Recomendei que fizesse a amarração novamente ao longo do dia.
Ela tomou o shake às 7h. Às 10h, eu estava dirigindo pela Rua Direita quando vi o marido dela descendo a rua sorrindo. Pensei: “Que graciosa é a felicidade de um pai que sabe que sua filha nascerá entre hoje e amanhã.”
Às 10h11, parei para abastecer o carro e vi uma mensagem da Wanice: ela havia sentido uma contração tão forte que vomitou, estava com diarreia e achava que não precisaria da segunda dose. Perguntei se poderia vê-la, mas ela pediu que eu esperasse os pais chegarem para cuidar do filho mais velho. Resolvi enviar um áudio perguntando como sentia Luana — se parecia mais baixa, pressionando o canal vaginal. Ela respondeu que sim, que estava até com dificuldade de ficar em pé.
Nesse momento, eu já estava em frente à minha casa, mas pronta para sair. Em apenas 10 minutos de conversa, cheguei, troquei de roupa, calcei os sapatos, escovei os dentes e avisei que estava indo. Cheguei em menos de cinco minutos. Quando entrei, Wanice estava sentada em uma cadeira de madeira, debaixo do chuveiro, no box do banheiro. Estava claramente em período expulsivo.
Perguntei se ela queria parir em casa ou no caminho, porque parecia improvável que conseguíssemos chegar ao hospital a tempo. Ela disse que não sabia, e, sinceramente, eu também não. Sempre pensei que, em um parto de risco habitual, é melhor parir em casa do que no carro ou na porta do hospital. Mas Luana tinha suspeita de sopro no coração. Uma dúvida ainda não esclarecida por exames. Poderia não ser nada, mas poderia ser algo.
Enquanto Wanice tentava decidir, pedi ao marido que trouxesse três fraldas de pano, brancas e limpas.
Ela queria escovar os dentes porque estava com um gosto ruim na boca. Achei engraçado que recusou usar a pasta do filho. Parecia que nem ela acreditava que estava parindo. Wagner achou sua pasta, colocou na escova e me entregou. Quando peguei a escova, já tinha certeza de que não daria tempo de nada — nem de escovar os dentes, nem de vestir roupa, muito menos de entrar no carro. Não deu tempo nem de avisar a obstetra do plantão sobre o que estava prestes a acontecer.
Só deu tempo de ver o períneo dela abaular, colocar as luvas, apoiar o celular contra o vaso sanitário – sem saber se estava mesmo filmando – e esperar Luana nascer.
Com Wanice de quatro apoios, debaixo do chuveiro, a cabecinha de Luana escorregou para fora. Desliguei o chuveiro imediatamente. Mas percebi que a cabeça não havia desprendido completamente — apenas a circunferência maior havia passado. Parecia um “sinal de tartaruga”.
Pensei: “Puts! Será que…”
Passaram mil coisas na minha cabeça. O medo do sopro, a memória de experiências anteriores difíceis que passei, e o receio de viver algo ainda mais difícil do que já vivi. Também veio o medo de acharem que eu induzi a situação de alguma forma.
Mas, como um sussurro calmo, também podia ouvir outra voz dentro de mim. Uma voz que, que prestando muita atenção, me dizia: “Confia!”
Nessas horas, a pausa entre as contrações parece uma eternidade, mas precisa ser respeitada. O bebê sabe nascer. Ele se desprende sozinho.
Quanto tempo esperar? Não sabia que horas eram. Não podia olhar, nem pedir para Wagner olhar. Ele continuava na porta, com Raul no colo. Mantendo a distância e a proximidade que precisava.
Nesse momento, a consciência do tempo é essencial. É preciso serenidade para respeitar a fisiologia do parto e confiar nela.
Enfim, outra contração.
Pedi para Wanice fazer um puxo maior. Quando ela fez, vi que Luana estava nascendo com a mãozinha no rosto, igual Tainá (outra bebê que havia nascido a pouco tempo). E então entendi a demora. Senti alívio por não ser uma distócia de ombros. Mas ainda estava atenta.
Não lembro se pedi para Wanice ficar em posição de corredor antes ou depois de ver a mãozinha, mas assim que ela mudou de posição, Luana nasceu por inteiro.
Sem tônus, mas tossindo. A cabeça bem roxinha e o corpinho bem rosado.
Pedi para Wanice se sentar e passei Luana por entre suas pernas. Ela abraçou a filha e, naquele instante, Luana abriu os olhos.
Lembrei do vídeo que publiquei há um tempo, explicando que bebês nem sempre nascem chorando. No vídeo, a mãe sabia que seu bebê estava bem. E ele estava.
Luana está bem!
Ainda temos tempo pela frente, mas deu tudo certo.
Afirmei em voz alta:
“Deu tudo certo. Está tudo bem.”
Agora precisávamos ir para o hospital.
Troquei as fraldas molhadas por secas, limpei o sangue das pernas de Wanice, ajudei-a a se vestir. Segurei Luana enquanto ela se organizava e seguimos para a maternidade no meu carro, apenas com um tapete higiênico cobrindo o banco.
Deu tudo muito certo.
Ao chegar à maternidade, senti que a plantonista me olhou com desconfiança. Ela perguntou se era um parto domiciliar planejado.
Foi difícil organizar minha fala de imediato, mas, aos poucos, tudo se encaixou. Pude, enfim, desabafar com ela sobre como me senti ao ver Luana nascer assim, em partes tão atípicas. Ela me acolheu e lembrou que esse nascimento quase foi um parto pélvico a jato, já que Luana ficou pélvica até as 35 semanas.
Respiro.
E sorrio.
Deu tudo certo.


